Blog do Melo ou Pílulas de Reflexão

Opiniões sobre o ambiente enxadrístico em geral.

30/8/08

O busílis dos convites encalhados

          Depois do GM Henrique Mecking, o Mequinho, ainda que a quilômetros de distância, a personalidade do xadrez brasileiro mais conhecida internacionalmente é o MI Herman Claudius van Riemsdijk, holandês naturalizado brasileiro, campeão nacional em cinco oportunidades (salvo engano), recordista de participações nessa competição, árbitro internacional, ex-presidente da Federação Paulista de Xadrez e do Clube de Xadrez São Paulo, redator durante décadas de uma coluna de xadrez no mais importante jornal brasileiro.

          Esse superstar de uma modalidade quase secreta no país chega aos 60 anos, com muita saúde. Para comemorar, obtém um patrocínio internacional e faz, aqui na capital paulista, na sede do Clube de Xadrez São Paulo,  um torneio denominado Internacional da Amizade. Atribui uma premiação de $ 10 mil reais, que para os padrões brasileiros é excelente.

          Elabora uma extensa lista de convidados, faz o indefectível torneio fechado simultâneo e registra-o na Federação Paulista de Xadrez, CBX e Fide.

          Aparentemente, tudo para ser um sucesso. No entanto…

          Eis que menos da metade das vagas disponíveis foram preenchidas; das 30 reservadas a estrangeiros apenas uma foi ocupada.

          Onde estaria, então, o busílis do encalhe dos convites?

          Estaria ele no sistema adotado de participação por convite, antipático para uns, enganoso para outros?

          Sistema antipático porque discriminatório, malgrado a tentativa de explicá-lo em “nota de esclarecimento” inserida na página on-line da FPX, cujas entrelinhas deixou entrever ter sido o critério primordial e não-confessado a exclusão dos eventuais desafeiçoados.

          E sistema enganoso também porque, segundo o Houaiss, temos as seguintes acepções para o termo “Convite”:

          Convite é “presente, dádiva; gratificação”;
          Convite também é “aquilo que estimula; incentivo, estímulo”;
          E convite também é “bilhete que dá direito a ingresso gratuito em um espetáculo”.


          Assim, como se pode ser convidado ou estimulado a participar de um evento, se ato contínuo é-se instado a recolher a não-módica quantia de 60 reais aos cofres federativos? Se convite enseja gratuidade, por quê da participação onerosa?

 

          Talvez o busílis esteja no enfoque promocional do evento: afora o apoio da página on-line da FPX, visualmente confusa, o sítio pessoal do aniversariante, denominado Hiperchess (e da qual se esperaria ser a página oficial do acontecimento), há meses não é atualizado e tampouco esta realização motivou sua retomada; nem mesmo o sítio do clube que sedia o evento nada informa a respeito. Uma lástima.

          Quem sabe, outrossim, o busílis se encontre na desestimulante distribuição concentradora dos prêmios, aliás um viés recorrente no ambiente federativo? 

 

          Mas, esteja o búsilis onde estiver, concluí-se que apenas uma verba expressiva vertida ao xadrez não traz a este esporte, por si só, estímulo e massificação: os recentes exemplos positivos de Registro-SP e Braço do Norte-SC estão aí para serem reproduzidos. Desde que haja interesse e seriedade.

 

(Esste "post" é também reproduzido no endereço UOL, onde podem inserir-se eventuais comentários.)

criado por galeriadexadrez    2:37 — Arquivado em: Sem categoria

7/8/08

“Honesto, mas autorítário, difícil de lidar”

(Este "post" é também reproduzido no endereço UOL, onde podem inserir-se eventuais comentários.)

         

          Como noticiado, no último trimestre deste ano ocorrerão eleições estatutárias da Confederação Brasileira de Xadrez. E também como noticiado, existe já um candidato declarado ao posto máximo da estrutura do Xadrez nacional.

          Trata-se do jovem advogado Pablyco Baioco Ribeiro, atual dirigente da federação espírito-santense. Em entrevista ao Celso Esteves Moron nas páginas da Casa do Xadrez, alinhavou suas idéias a respeito. E se boas intenções valerem, o candidato começou bem, quando afirma, como marco inicial de sua possível gestão, “dar continuidade ao excelente trabalho do Sérgio Freitas”, uma vez que “a casa está em ordem…”

          Houve avanços consideráveis na gestão que se finda, sem dúvida, principalmente no tocante à racionalidade administrativa. Os ralos por onde se escoavam as receitas auferidas foram extirpados, graças a idoneidade moral do seu dirigente. E não apenas a idoneidade, mas também à vontade política de impor a seus pares a desambição de servir-se do cargo para auferir vantagens indevidas.

          Mas não se pode qualificar o trabalho de qualquer dirigente como perfeito ou bem acabado só por suas qualidades meramente pessoais. Estas são condição primeira, mas não o suficiente. Pois restaram questões controversas que devem merecer a apreciação e consideração do sr. Baioco Ribeiro, caso eleito.

A QUESTÃO DO AUTORITARISMO

          Há alguns dias, comentou-me um ex-presidente da Federação Paulista de Futebol, pessoa íntegra, que à época manteve relações de trabalho com o Sr.Sérgio Freitas: “Honesto, mas autoritário como ele só, difícil de lidar”.

          A este respeito é bem elucidativa a resposta do presidente da CBX ao sr. José Blanco, do RJ, sobre questão pertinente por este levantada. Depois de ampla explanação a principio cordata sobre o tema, o sr. Freitas termina com uma desancada de doer: "Portanto, você não tem nenhuma razão. E eu nem precisaria responder (sic)". Como diria o Clodovil, foi uma "rodada da baiana". 

          O “Comunicado CBX n. 235” é emblemático quanto ao tema, com seus efeitos macartistas tupiniquins felizmente suspensos por decisão judicial, que houve por bem reconhecer a truculência como incompatível com o estado de direito.

          Espero do sr. Baioco Ribeiro, se eleito, melhor adequação ao cargo que é fundamentalmente político, no bom sentido do termo. E que pede a predisposição para escutar, argumentar, contra-argumentar, ponderar, por vezes saber transigir.

A QUESTÃO DA TRANSPARÊNCIA

          Uma iniciativa inovadora da gestão que se finda foi a iniciativa de expor os balanços mensais da entidade na Internet, comportamento hoje somente reproduzido pela federação paranaense. Mas, por que parou? Parou por quê?

          Fica a esperança, também, de que o sr. Baioco Ribeiro, se eleito for, assuma a retomada deste procedimento e, quem sabe, com a consolidação desta exemplar atitude com sua inserção nos estatutos, fazendo disto obrigação saudável aos futuros gestores.

A QUESTÃO DA POLÍTICA DO (DES)ESTÍMULO

          Se, em decorrência da política (ou falta de) aplicada nos últimos anos, as categorias sub 08 e sub 10 estão no último degrau da importância, por que ainda se cobra de cada uma a taxa de cadastro anual, a mesma taxa da qual eram isentas até a gestão anterior, inclusive até a categoria sub 12? Servem estas crianças (e os seus pais) apenas para subsidiar o apoio que a CBX dá aos ocupantes do topo da pirâmide?

          Outrossim, o problemismo é modalidade de xadrez regulada e apoiada pela FIDE, havendo, inclusive, campeões do mundo da modalidade. Por que a CBX praticamente ignora a questão, que tem incontáveis adeptos por este Brasil afora?

          Os temas abordados nos dois parágrafos acima vão na contramão do que se entende como massificação do xadrez, que a entrevista aponta como de interesse especial do possível futuro presidente.

A QUESTÃO DO AFUNILAMENTO PROGRESSIVO DOS GASTOS

          A confederação encontra-se eficientemente estruturada para arrecadar aquilo que é devido pelos seus cerca de 30.000 cadastrados, mas deve-se discutir uma nova política de aplicação desta formidável (para os padrões do xadrez nacional) receita auferida, evitando-se o atual afunilamento progressivo dos gastos em benefício de menos de 0,1% dos enxadristas afiliados.

          Um exemplo: participaram do Campeonato Sulamericano Sub-20 vários enxadristas nacionais, que tiveram as despesas pagas pela confederação; por que, no caso das competições nacionais, os jovens campeões não têm, de parte da CBX, a regalia nem da isenção das taxas de inscrição?

          Outro exemplo: talentosos jogadores nacionais já alcançaram, ou estão por alcançar, ao menos o título de Mestre da Fide, muitos deles suportando sacrifícios financeiros para praticarem e evoluírem no xadrez; por que a CBX não poderia subsidiar a dispendiosa regularização perante a Fide?

PAUTA PARA O PRÓXIMO TRIÊNIO

          Estas são questões, além de muitas outras, sobre as quais terá a palavra final o sr. Baioco Ribeiro, ou quem venha a ocupar no próximo triênio o posto máximo do Xadrez nacional, com esperanças de que a gestão futura justifique a qualificação de perfeita ou bem acabada.

criado por galeriadexadrez    2:12 — Arquivado em: Sem categoria
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