30/4/08
Pedras no sapato da patota do faz-de-conta.
Ele ali é visto como uma autêntica pedra no sapato. Naquele dia, no entanto, ele se superou: mais pareceu uma pedra na vidraça daquele edifício mal conservado, velho de guerra das Perdizes.
Munido de seu estoque de pedrinhas, ele adentrou no prédio por volta das 17 horas, final da tardezinha daquele dia deste abril, e lá já estavam reunidos, na távola retangular do sétimo andar, a patota bem conhecida: o anfitrião Orange, o Chessfão e mais alguns capitaneados como o Carrasco (que não é o Walcy), o Salame (que não é o da Perdigão), entre outros menos cotados.
Ao chegar, ele foi recepcionado pela Cláudia (que não é a Raia, mas tão simpática quanto), sempre cordata a oferecer um cafezinho.
Mas ele foi pego de chofre pela intervenção do Orange, a enfatizar que a assembléia da Facçao em Prol do Xadrez começaria somente às 19 horas. Disse que naquela hora estava em andamento reunião privativa da diretoria, cujos sapatos, ao que parece, não estavam ainda preparados a suportar uma invasão de pedras.
Apanhado de surpresa, pois - santa ingenuidade! - achava que qualquer representante de entidade filiada à Facção seria bem-vindo a colaborar nas tais reuniões, o nosso Pedra houve por bem acatar o ‘gentil’ convite para se retirar.
"Antes de sair, perguntei ao Orange se poderia, numa sala separada, consultar os documentos da prestação de contas, prevista na ordem do dia. Fiz ver que durante a assembléia talvez não dispusesse de tempo hábil para tanto."
"Claro que não pode, respondeu o outro, só o presidente da mesa é quem tem autoridade para autorizar."
"Mas o presidente da mesa vai ser você mesmo!", rebateu o nosso Pedra.
É neste ponto que o diálogo foi interrompido pelo Carrasco (que não é o Walcy), acudindo o coleguinha de ’txurma’, num acesso de descompostura, "seu bosta, quem você pensa que é? Meça seu tamanho!", e mais impropérios, palavreado chulo.
O Pedra, não entanto, não se apequenou:
"Você tem só tamanho".
"Tenho tamanho e atitude".
O Pedra não se conteve, "perguntei se além dessas duas qualidades, ele tinha também o peito de aço. Antevi uma possível cabeçada em legítima defesa".
O Orange, atônito, conseguiu apartar o Carrasco (que não é o Walcy), "e fui então tomar meu lanche ali perto na Praça Oeste".
"Retornei às 19 horas, noitinha, quando começou a convocada assembléia da Facção em Prol do Xadrez: ali estavam o Chessfão, incorporando o ectoplasma do 64, o Carrasco (que nunca seria o Walcy) à frente do automóvel clube (que não é o Paulista), o Herman (que já não é de Araujo), gestor gabaritado do xadrez pinheirense, e além disso, tome procuração daqui, procuração dali, procuração dacolá. Afinal, nada como se garantir na conservação do velho feudo.
"Solicitei vista dos documentos submetidos à apreciação dos presentes. O Orange exibiu, então, um resumo (?!) dos gastos efetuados em 2007. Pedi que fossem exibidas as notas fiscais e comprovantes das despesas. Intrigou-me a menção de compras de computadores e relógios (sempre eles) de xadrez. Qual a quantidade? Quem vendeu? Qual o preço de cada peça?.
"O Orange não soube ou não quis esclarecer, eis que a documentação estaria com o contador, e que eu não detinha poderes a essa averiguação. Exigi, então, que o meu pedido e a recusa constassem da ata, assim como minha reprovação das contas submetidas à análise".
O Orange se indignou: "Fique sabendo que o Conselho Fiscal aprovou tudo!"
O nosso Pedra pensou com seus botões: o conselheiro Garcez (que nunca chegará a Lucas Nogueira), o conselheiro Marcos (que não é o grande palmeirense, ali quase vizinho) e o conselheiro Vinicius (que não é o De Moraes) devem piamente acreditar no que não é verdadeiro. Fazem o coro dos inocentes úteis, ou dos úteis nem tão inocentes assim.
"Ao final as contas foram aprovadas com a minha ressalva. Foi então que se seguiram os confetes do Chessfão, as purpurinas do Salame e as lantejoulas do Carrasco a incensarem a administração rendosa do Orange, que agradeceu comovido aos coleguinhas de ‘txurma’. Mas ele não se esqueceu de mim, o ingrato: disse que eu fico vendo as documentações, e depois saio por aí contando tudo o que vejo lá dentro!"
O nosso Pedra não sabia se ria ou se chorava em face de tamanha comédia.
Mas para resguardar direitos, só lhe restou a alternativa de dirigir-se ao distrito policial mais próximo e fazer lavrar o Boletim de Ocorrência de Autoria Conhecida. Que era a derradeira pedrinha do dia no sapato da patotinha do faz-de-conta.
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